Por Marcelo Tonon, Diretor de Direção e Suspensão e Supply Chain Global da Frasle Mobility
Quando pensamos no que de mais relevante acontece hoje na indústria automotiva, a primeira coisa que vem à mente é a revolução dos veículos elétricos. Mas será que estamos mesmo diante de uma revolução ou de uma evolução, acelerada e inevitável, como já ocorreu outras vezes na história do setor? Só olhando para o passado é que podemos responder a essa pergunta. Isso nos ajuda a entender o presente e a projetar o futuro da mobilidade.
Da inovação mecânica à era digital
Desde o emblemático Ford Model T, que marcou o início da produção em massa de veículos, a indústria automobilística nunca deixou de evoluir. As inovações foram dos carburadores improvisados com latas de tomate aos sistemas de injeção eletrônica dos anos 1990, passando por avanços em segurança, conforto e eficiência. Cada uma dessas etapas, à sua época, foi vista como revolucionária, mas hoje enxergamos como parte de um processo contínuo de evolução.
Os veículos modernos são verdadeiros sistemas mecatrônicos integrados, repletos de sensores, módulos eletrônicos e controles avançados que garantem precisão, eficiência e segurança. O carro elétrico não é uma novidade. O Flocken Elektrowagen, considerado o primeiro modelo produzido, surgiu em 1888, mas a eletromobilidade só ganhou escala e relevância global a partir de avanços recentes em baterias e eletrificação.
Sustentabilidade e inovação são o motor da mudança
A ascensão dos carros elétricos é impulsionada por dois grandes vetores: a crescente preocupação ambiental e o avanço tecnológico. A busca por soluções que reduzam as emissões de carbono e combatam as mudanças climáticas tornou a eletrificação uma escolha estratégica para consumidores e fabricantes. Além disso, a melhora constante dos motores elétricos, que oferecem uma aceleração suave e silenciosa e uma experiência de condução diferenciada, somada à evolução das baterias e à expansão da infraestrutura de recarga, têm tornado esses veículos cada vez mais práticos e acessíveis.
Esse movimento provoca uma disrupção na indústria automotiva tradicional. Montadoras consolidadas estão redesenhando suas estratégias e investindo pesadamente em eletrificação, enquanto novas empresas de tecnologia e startups desafiam os modelos de negócios já estabelecidos. O futuro aponta para linhas de produtos cada vez mais eletrificadas e conectadas.
Suspensão e direção: o futuro está em movimento
A revolução (ou evolução) dos veículos elétricos também se reflete, por exemplo, nos sistemas de suspensão e direção, área em que atuo como executivo desde os anos 1990. Apesar dos avanços, a frota circulante ainda é majoritariamente composta por veículos com sistemas mecânicos de suspensão e direção.
Ainda são os amortecedores, que se popularizaram na década de 1960 e não param de evoluir, junto com componentes como molas e peças de metal-borracha, que seguem como os grandes responsáveis por garantir o conforto dos ocupantes dos veículos. Amortecedores eletrônicos e adaptativos já estão disponíveis, mas ainda para uma pequena gama de veículos.
O mesmo acontece com os sistemas de direção. Ainda que o futuro da conexão entre volante e rodas seja “by wire”, o que temos circulando nas ruas e estradas são veículos com direção mecânica e assistência elétrica, substituindo a direção hidráulica, tornando a direção mais confortável, precisa e segura. É uma evolução (ou revolução?) se voltarmos um pouco no tempo, para a época de direções totalmente mecânicas. Quem dirigiu carros com esses diferentes sistemas sabe, e sentiu, a diferença.
O aftermarket (IAM) segue acompanhando essa evolução, adaptando-se às novas tecnologias e preparando-se para um futuro em que a eletrônica, a inteligência artificial e a sustentabilidade serão cada vez mais centrais. No entanto, por ora, grande parte das intervenções ainda ocorre em sistemas convencionais, que continuam sendo fundamentais para a segurança e o conforto dos ocupantes.
Evolução e revolução caminham juntas
A história da indústria automotiva é marcada por sucessivas ondas de inovação. O carro elétrico, ao integrar sustentabilidade, tecnologia digital e conectividade, representa tanto uma evolução natural quanto uma revolução disruptiva. O que vemos hoje é a convergência de tendências que vão transformar não apenas o produto, mas todo o ecossistema da mobilidade.
Executivos e profissionais do setor precisam estar atentos a essas mudanças, investindo em capacitação, inovação e adaptação. O futuro da mobilidade será cada vez mais elétrico, inteligente e sustentável – e cabe a nós liderarmos essa transformação, seja ela uma evolução ou uma revolução.



